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segunda-feira, 15 de junho de 2009

::O Jogo da Amarelinha::

"Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.

Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água." (O Jogo da Amarelinha, capítulo sete, Julio Cortázar.)

Esse é um dos capítulos mais sensuais que já li.... Aliás, "O Jogo da Amarelinha" é um dos melhores livros que já li na vida. Recomendo! A narrativa se passa em Paris (fabulosa!), onde as pessoas se detêm em praças ou salas para se beijarem e comentarem fatos corriqueiros.

domingo, 30 de novembro de 2008

A condição para a memória é o esquecimento

Eu costumava pensar que o que precisávamos era começar a ter lembranças juntos...
Mas não precisam ser lembranças eróticas necessariamente, mas lembranças de momentos, de perfumes, de sabores, de toques, de tudo o que puder ser lembrando.
Lembranças de versos, por exemplo, que nos façam rir ou chorar de tão bons, mas também não vou te negar que sempre te achei um homem maravilhoso.

Não sei explicar, mas eu quero e preciso me lembrar dos sentimentos
que você desperta em mim todos os dias.
É como um sonho antigo do qual não quero acordar
Eu costumava pensar que jamais conseguiria dizer isso
sem lhe dar um abraço apertado-demorado-e-bem-fundo,
mas consigo.

Plano onírico

Sonhei com você esta noite inteira e estava muito triste.
Não sou de acreditar em sonhos, mas está tudo bem?
Mande notícias.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

:Perspectiva::

Transparente em sua intensidade
a moça
vive a espera.

Internamente carrega
uma flauta oca de bambu.
Instrumento claro e não distorcido
da ausência de ternura [por si mesma].

Os sentimentos impulsionam a roda.
Matam tua fome instântanea [e a ventania],
Fazem brilhar teu sorriso recortado,
Acalmam todo o silêncio.

Harmonias e correspondências atraem teu olhar,
Passional e ingênuo.

Sente na carnalidade da pele.
É guardiã da cruz,
uma mulher para ser vista de perto.


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